
Brasília é diferente de tudo o que existe no mundo e, como boa brasiliense, estou acostumada aos estranhamentos que visitantes sentem ao pisar na capital a primeira vez. “Nossa, não tem esquina!”. “Os prédios são todos baixinhos e iguais”. “Aqui não tem pessoas andando pelas ruas”. Esses são alguns dos comentários que normalmente ouço por ai.
Mas a impressão sobre a cidade que mais me chamou atenção foi, sem dúvidas, a de Clarice Lispector. Esposa de embaixador, a escritora fez algumas visitas a Brasília e com ela construiu uma intensa relação de encanto e incômodo, que apenas o que é muito singular pode nos causar. Por mais que admirasse o texto de Lispector, nunca tinha sentido tal sensação. Afinal o estranho para ela é o cotidiano para mim. Enfim chegou a minha vez.
Fernando de Noronha é a única ilha oceânica habitada do país. Além de uma beleza extraordinária, o lugar possui uma história muito peculiar. Foi como uma prisão a céu aberto (essa expressão também usada por Clarice para definir Brasília), que Noronha recebeu seus primeiros habitantes. Apesar de isso ter acontecido há muito tempo atrás, a sensação de estar preso é recorrente a muitos moradores. Em várias entrevistas isso foi relatado.
Estar ilhado é quando os pensamentos não conseguem mais atravessar a linha do horizonte. O mesmo mar que você olha com todo o encantamento do mundo, pois sabe que todas as outras praias perderão a graça depois de ter passado por aqui, é também o seu algoz. Ele te cerca por todos os lados. O que costumava ser sinônimo de liberdade se tornou, de repente, uma barreira intransponível.
Sempre tive uma relação muito forte com o mar. Certa vez me disseram que sou filha de Yemanjá e, não posso negar, adorei a idéia. Superstição ou não, quando viajo para cidades litorâneas, a primeira coisa que faço é molhar apenas os pés em suas águas e agradecer por, mais uma vez, ter a chance vê-lo. E dessa vez não foi diferente. Mas, agora, o mar se apresentou de maneira muito maior para mim. Ou fui eu que fiquei muito menor para ele.
Crise de identidade, vingança de deuses e orixás, ou talvez a tão temida neuronha. É difícil definir essa sensação. Não digo que estou à deriva, pois isso significa estar perdida e perder-se por aqui é artigo de luxo. Também não estou arrependida. Dizem que só entra na ilha quem ela escolhe, então estou no lugar certo. E também não nasci em lugar comum para sempre saber onde vou chegar. Sigo estranha em meus estranhamentos. E que no caminho, os lugares singulares entrem no plural.
Que delicado! Que sensível! Que generosidade de se dar assim tão repleta de sentimentos e ao mesmo tempo tão real. Vc é o máximo filha de Yemanjá.
Estou adorando! Continuem!
Beijos pra tod@s
Por: Carlota Novaes em Julho 26, 2008
às 2:22 pm
Que bacana seu texto, C.!
Realmente, o mar pode trazer sensações ambivalentes, revelações, experiências inusitadas. É o poder da natureza imprimindo a sua marca no curso da civilização.
Estar sob ou sobre o mar, cercado (ilhado) pelo mar. Não importa, pois ele tem muito a nos ensinar. Ele pode ser a matéria-prima para a poesia dos poetas e a narrativa dos escritores, o refúgio dos contemplativos, o desafio dos aventureiros, o espelho das projeções dos nossos sentimentos mais profundos.
Não esqueçamos que, antes do nascimento, no ventre materno, estávamos abrigados por um pequeno e aconchegante mar.
De qualquer modo, vivendo em cidades, ilhas ou cruzando oceanos, somos todos habitantes do Planeta Água!
Parabéns pelo projeto.
Por: Frederico em Julho 26, 2008
às 7:21 pm
Linda a comparação entre Brasília e Noronha: o que nos liberta é o que nos prende, o que nos encanta é o que nos amedronta……. e assim por diante.
Beijos.
Por: Marli em Julho 26, 2008
às 8:19 pm